Volúpia do aborrecimento

Volúpia do Aborrecimento
(singela homenagem a Brás Cubas)
Demônios me tomam
Como um cão sujo.
Submeto-me aos seus desejos:
faço coisas impublicáveis!
Me jogam na sarjeta
como lixo ou coisa igual.
Sinto-me mortificado,
mas amanhece um novo dia e a vida recomeça…
O cidadão veste sua roupa e sua capa,
poucos sabem o que ocorrem para além do cetim deste meu traje.
Pouco importa! Dane-se! Ninguém sabe quem sou!
Nem eu mesmo estou, sequer perto, de chegar a me saber.
tomo meu café tranquilo
maquinalmente cumpro as tarefas e obrigações assumidas
pensando na noite suja e boêmia que me aguarda
meus bichos e meus monstros me espreitam
calmos como estou agora
mas sedentos pelo meu orgasmo, meus espasmos
sei que morro desta vida que levo,
só não sei ainda o dia…
mais cedo ou mais tarde
eu rompo com a moral
e rasgo este corpo, me livro deste lodo!
Já não caibo nestas roupas costuradas para não chamar atenção
ou alarmar os olhos das pudicas senhoras.
quero alarmar!
causar frisson e desespero!
Quero escandalizar até o anjo negro que se alimenta do meu sumo!
Ele que no tumulo recosta sua cabeça,
e ri sem fôlego do esforço que eu faco pra me acomodar nos corpos.
tentativa fútil de esconder a dor que sinto
simplesmente por eu ser quem sou.
rio de mim, rio do anjo.
Rio dele que anda louco a espera de um juizo, da batida do martelo
que não chega!
não percebe que já cumpre sua pena na espera?
Pobre, tolo…
Rio de mim que me atordoo para preencher o dia,
tão somente!
Me acossa o anjo para ver o arrastar de pernas,
que promovo à luz do dia.
sei de tudo isto e rio.
A volúpia do aborrecimento tem poesia neste filme
NON SENSE: cores texturas e sabores se confundem num clipe ilógico sem sequência!
Apneia, afasia e desespero neste assalto monstruoso que me excita.
como noiva ou debutante ansiosa pelo amado eu me movo
finda a trilha o prazer abjeto é quem me espera.
Musas e sereias que me tomam possuidas do desejo
Descartáveis como putas baratas de esquina
Se esvaem como brumas no raiar do dia!
Vomito no asfalto o queijo quente e o absinto falso da boate
é lá que rosnam cães, bichas travestis e putas
é lá que conto as vitórias que não tive
e os casos vívidos só na mente.
Meu rosto sente o quente hálito de regúrgito
escárnio de mim mesmo
levanto-me do passeio público e bato a poeira no meus trajes
ergo meus bracos, ajeito o cabelo
olho o relógio, ainda é tempo!
Recomeço a rotina abissal…