Dissertações sobre o incurável

Conversávamos em um bar qualquer da periferia de São Paulo, um amigo e eu. Inauguravam o papo, uma Skol e as novidades na vida de cada um. Durante algum tempo falamos sobre as dificuldades dos dias atuais, entrecortando a conversa com um ou outro comentário sobre a recente internação de meu pai. Falamos sobre o quanto a vida nos forçou a crescer nos últimos 10 anos… Outra Skol na mesa.
Sempre rindo, fazendo piada até das maiores dificuldades superadas, como de costume. Partilhamos de um humor negro, ele mrnos negro que nosso humor e eu deficiente físico. Nunca rechaçamos piadas, mesmo que sobre nossa própria condição. Talvez seja sábio rir da própria desgraça, talvez uma imbecilidade descomunal, mas pelo sim e pelo não, preferimos rir. E muito.
Em dado instante ele engatou um papo sobre uma ex. Esta que o traiu e roubou-lhe a inocência. Ao ouvir cada detalhe da narrativa ponderei a situação vivida por ele com algo muito parecido que vivi a alguns anos. Pensei no quanto certas coisas são incuráveis em nossas vidas. Uma década passou e ele era capaz de relatar em detalhes cada fato, cada nuança, cada detalhe daquilo tudo. Impressionantemente para mim, mesmo tendo sido algo tão marcante para ele, hoje este amigo vive bem com outra moça, com uma índole diametralmente oposta à dela, certamente uma mulher muito superior em caráter e atitudes. Mas tratava-se de um incurável. Algo como um cluster na HD. Que mesmo havendo uma readequação dos arquivos, sempre estará lá. O mesmo ocorre comigo. Cada desventura, cada derrota, cada perda, ocupam um espaço dentro de mim. Penso, o que fazer com este incurável? O que fazer com tudo o que embora queiramos, não conseguimos apagar de nós mesmos? Sinto, que o melhor a ser feito é viver novas coisas, amar a tudo o que quisermos, ter sonhos e metas. Assim empurramos esses objetos sem uso para um canto qualquer de nós mesmos. Para que lá fiquem guardados até que inadvertidamente tropecemos numa dessas histórias e sejamos capazes de rir diante de nossa inabilidade.
Devaneio superado, volto a dar atenção a fala de meu interlocutor, faço um outro apontamento sobre o caso, com base em minha própria vivência. Seca a ultima garrafa. São algo em torno de vinte e duas horas, o dono do bar arria as portas, deixando-as a meio mastro. Saímos na chuva em busca de um ônibus. Uma nova semana começa…