Não nos tornemos indiferentes

“O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença”(BOFF, Leonardo)

É com a frase acima, de Leonardo Boff, que inicio esta fala. Não se trata de um grande texto de filosofia, de uma instigante crônica, ou de um lindo e sensível poema. Nem ainda de uma portentosa dissertação. Mas, certamente, trata-se de um grande insight pra mim. Em filosofia dizemos “tò thaumázein”  acerca do espanto, do “maravilhamento”, que o indivíduo se coloca diante do desconhecido, do novo.Sinto-me assim quando penso nessa frase de Leonardo. É-me tão novo o fato de que ódio e amor podem não se opor, mas sim a indiferença ser opositora à amorosidade, que me des-espero percebendo o quanto estamos dando murros em ponta de faca, sorrio ao perceber que amor e ódio são forças positivas, ambas correm paralelas, e que a inatividade, ou seja, a indiferença é a energia que se opõe a elas. Isso  parece revolucionário,  e possivelmente elemento fundante da reestruturação em todos os âmbitos de nossas vidas.Diante das minhas conjeturas e projeções a respeito, tenho apenas um pedido para nossos irmãos em humanidade: não seja um indiferente. Nunca! Às vezes, lavamos as mãos diante de uma decisão importante, damos de ombros aos problemas alheios, e não raro até para os nossos próprios dilemas. A escolha mais fácil diante de duas opções, na maioria das vezes é recuar e não escolher nada. Parece o melhor, o menos dolorido, o mais simples. Mas não. É o mais difícil. É o mais difícil porquê nos ilude com uma facilidade inicial, mas nos apunhala quando menos esperamos. Uma outra constatação que nos acomete mais cedo ou mais tarde é que o tempo passa. Sim, ele passa. E quando olhamos para trás, vemos todas as nossas desistências nos assombrarem como lacunas que esvaziam nosso momento, que lá quando abandonamos sonhos e projetos, era apenas um nebuloso futuro. A única coisa que nos pertence é o agora. A vida, sucessão de agoras, nos exige escolhas o tempo todo e ao nos tornarmos indiferentes, abandonamos nossa essência, que é a de uma amorosidade ativa. Entendemos que a esfera do amor seja a esfera da entrega. Amar é entregar-se, doar-se. Seja a uma causa, se filosofia, sonho ou pessoa, entregue-se, doe-se. Viver merece entrega. Merece permitirmo-nos. Nada justifica agirmos como um Pilatos que ante o fel da vida preferiu fugir a bebê-lo. Sejamos como a figura do Cristo que diante da negativa do Pai em afastar o cálice, bebeu-o até a última gota. A alguns de nós,  o destino reservou doçuras. A outros, todo o amargor e azedume. Mas a todos cabe tomar o próprio quinhão da Fortuna e beber do cálice independentemente do sabor que nos aguarda. Em linhas gerais, nossos dias são quase que unanimemente agridoces. Portanto, chega de desculpas, vitimizações. Cada um com sua cruz e todos adiante. Nesse jogo sem regras efetivas, sem verdades absolutas, a única regra é não se anular. Não se isente, não suba no muro! Todo corpo quando pára, morre. Somos Ânima, Dýnamis e Energeia, somos Vida, poder-ser e energia em ato. A única certeza é o movimento, o fluxo. Nada justifica parar, porque parar é morrer, como dito no parágrafo acima. O simples fato de estarmos vivos, é em sim uma Hedonê, um prazer. A consumação que ocorre apenas por existirmos estimula-nos e não devemos temer os estímulos. A alienação do nosso modo de ser (Ethos) chegou a tal ponto que tememos Ser. E isso significa, que por temermos não nos enquadrarmos, sufocamos nossa identidade, ficamos indiferentes a nós mesmos para evitar o custo de sermos o que somos. Isso é a total patologia do homem. Abrir mão de ser para ser! Por mais absurda que possa parecer a sentença, é exatamente isso o que temos feito. Para podemos ter espaço no que chamamos sociedade, para “sermos alguém”, nos tornamos algo que não somos. Coletivamente, estamos indo em direção ao caos. Prova disso são os “Sintomas” que traduzindo do grego seria algo como “Juntar Peças”, que cada vez nos evidencia a necessidade de recolher os sinais que nossos corpos e mentes nos dão de que algo está indo na direção errada! A ciência médica através da OMS (Organização Mundial da Saúde) já projeta a elaboração de uma CID-11, dada a quantidade de patologias que estão sendo identificadas na vivência humana. Boa parte disso, deriva da indiferença, do abandono. Abandonamos sonhos, pessoas, amores, crenças, valores, ética. E tristemente, na maioria das vezes, em busca do “lugar ao sol”. Mas, não raro, acabamos nos queimando tanto nesse “sol” que desenvolvemos o câncer da vacuidade. Em suma, até que nos provem efetivamente o contrário, temos apenas esta vida, apenas esta oportunidade de sermos felizes. Portanto, não nos abandonemos. Não abandonemos os nossos sonhos, não abandonemos aqueles que amamos. Não nos tornemos indiferentes.