Emancipa-te

Emancipa-te

Rompa o invólucro que a protege de ti mesma.

Desafia o instinto de manter-te inerte.

Não percebes que apela contra si esta volúpia, Em colocar-te voluntariamente semi-morta?

Abandona-te ao relento Redefina-te de um modo indouto.

Rasga-te por dentro!

Reflete o espanto no espelho ante teus olhos, E te afogues em soluço, Em teu catarro.

Transando alto a dor e desespero Em gargalhada, orgasmo e riso solto.

Vilipendie boquiabertos transeuntes,

Deflorando a ti e a inocência virginal, que te macula.

Ante o algoz, impiedoso, Vergasta tu mesma a tua pele.

Na carne tensa, Desfira golpes de sarcasmo e indiferença.

Vermelho é o troféu de tua vitória.

Cuspa na cara de quem te mata Mesmo em vida.

Regozija-te no temporal Do caos do frêmito.

Fração pequena de prazer, Que logo passa,

Menor apenas que a vida Morna dos teus dias.

Agarra o gôzo desse instante E o prolongue o quanto possas!

Sinta a brisa desse lapso de maioridade, Lamber teu rosto, os teus seios, tua vulva.

Seduz seus pelos, tuas pupilas e teus lábios Para si e para os outros, Faça-te nua.

Desapega-te do entorno que te fere,

Abra tuas asas, Ainda amassadas, tosco corvo.  Sinta-se águia, mesmo em sonho e

Imponente,

Simplesmente, voe!

Vá para longe, Cada vez mais longe…

Sem destino, sem chegada,

Até que te doam insuportavelmente Ossos, tendões e nervos.

Até que te doa o próprio vôo.

Aterroriza-te com os vermes nesta caixa Que habitas.

Não mensuras quanta dor há no Conforto e no sossego?

Revolta-te, supera-te Consuma-te.

Ou tão somente, Por mais simplório que pareça,

Emancipa-te.

(LIMA, L. S.)