2014

2014.

Se eu terminasse o texto com o ponto final acima, este mesmo, ao lado do quatro, eu não faria jus à esse ano. Dois mil e quatorze para mim foi o ano da relativização. Tive que me reeducar.

Fui educado por meu pai. Intuitivamente, ele sabendo das dificuldades que eu encontraria na vida por ter uma limitação física, me educou pra ser forte. Me dizia que eu tinha que ser duro, inflexível. Por que homem não chora, homem enfrenta. Cresci com essa percepção. Mas os anos vieram. E vi meu pai flexibilizar algymas convicções em nome do mundo novo que nascia com a Internet, a globalização. Ele teve que aprender a dialogar com a enxurrada de informações que recebíamos. Meu pai chorou. E eu o vi chorar. Chorou quando a vida deu golpes duros a pontos de chegarmos quase ao ponto de não termos o básico para nossa mesa. Reaprendi. Descobri que às vezes o golpe é duro demais para não transbordarmos nossa emoção em lágrimas.

De alguns anos pra cá, a vida têm se esmerado em me ensinar que a força não resolve tudo. Nem a obstinação.

Em certo instante, em um de seus desdobramentos, minha existência, foi privada da referência desse pai, por motivo conhecido pelos mais próximos, e tive que continuar me educando sem ele.

Sigo fazendo escolhas. Mas hoje aceito perder, aceito que nem sempre dá certo, que o mundo não deve se prostrar para o que eu aprendi ser o certo.

Desisti de certas bandeiras, de certas crenças. Sinto que estou em reforma, e na ausência de engenheiro ou arquiteto nessa obra, sendo ela executada por um pseudo-filósofo, nada mais óbvio que dizer, que não tenho idéia do que virá.

Dois mil e quatorze me ensina ainda a esperar, seja na lenta recuperação de meu pai, seja na lide com minha mãe. Ensina a ponderar quando em convivência com pessoas opostas. Ensina a ser menos denso, mais leve quando perto de Aninha, meu presente mais doce desde 2013.

Dois mil e quatorze me ensina. Dois mil e quinze já me desafia. Ele me assusta pois sei de alguma maneira, que será um ano de radicais mudanças. Restando a mim, torcer para que dê conta de todas elas. Resgatarei certamente da força ensinada pelo meu velho pai, que hoje luta para erguer seu corpo sem o apoio de outras mãos que não as dele. E o faz com veemência, olhando feio quando ajudamos. Como sempre.

Realmente, um ponto é muito pouco para pôr fim em algo. Anos inclusos. Sinto que eles não acabam, que reverberam infinitamente, sobrepondo-se um ao outro.

Reverbere, dois mil e quatorze. Reverbere. Assim como eu continuarei reverberando ao longo dos séculos.