Paixões da Alma – René Descartes

Segue texto da apresentação do livro, para grupo em vídeo conferência “Hangouts”, organizada por Hugo Allan Matos, agendada para as 20:00 do dia 29/04/2015:

Paixões da Alma

Embora a referida obra seja pouco abordada nos meios acadêmicos, e por desconhecimento, considerada obra “menor” no trabalho do autor, “Paixões da Alma”, escrita em 1649, é o último de seus trabalhos, tendo sido dedicada à Princesa Elisabete da Boêmia e mais dois alunos.

Por se tratar de uma obra de maturidade do autor, temos presente elementos fortes de obras como, Meditações Metafísicas e Discurso do Método. Sendo facilmente encontrado o paradoxo do dogma acadêmico ante o empirismo e o método cartesiano, Situação recorrente em Descartes.

Nesta obra, declaradamente, há o esforço do autor em apresentar um trabalho estritamente voltado a fisiologia, estando seu discurso filosófico a serviço desta.

Em suas obras anteriores, Descartes nos dá algumas indicações do que poderia ser chamado de “moral cartesiana”, mas mesmo à revelia de sua vontade expressa de ater-se a fisiologia, é em Paixões da Alma que esta moral se explicita, tomando corpo. Muito embora, não tenha o autor escrito nenhuma obra, ou sequer capitulo neste livro no qual nos debruçamos, tratando especificamente do tema.

Como nos diz o Dr. Benes Alencar Sales, acerca dessa moral: ” A moral cartesiana não é uma moral preceitual, nem uma teologia moral. É uma moral de elevado conteúdo, uma moral do contentamento do espírito, do homem que conta com o livre arbítrio, cujo agir é o fruto do acordo que se estabelece entre o entendimento e a vontade. Esta moral gravita em torno da virtude, da generosidade, rainha de todas as virtudes, que engrandece o homem e o torna solidário no convívio com os outros homens. O homem da moral cartesiana reconhece-se fazendo parte do universo e, particularmente, do planeta terra que compõe um todo.”.

Pois bem, se a moral não é tema central do livro, por que nos detivemos em, além de falar de sua aparição no contexto da obra e na citação de sua representatividade?

Ora, nos parece simbólico nos trabalhos cartesianos, um esforço Hercúleo e defender o poder e supremacia divinos, e em preservar um certo nível de alinhamento entre as reflexões filosóficas, as descobertas científicas e dogmas religiosos.

Inspirado pelo insucesso de Copérnico em fazer prevalecer suas convicções a respeito da dinâmica universal, teocentrismo e outras descobertas, tendo sido levado à morte pela Igreja, e pela necessidade de retratação pública por parte de Galileu, seu contemporêo, por conta da divergencia de sua especulação com o dogma, Descartes, usa seu viés moral, pára “negociar” com a tradição, a apresentação de conceitos e conhecimentos avançados para a época, oriundos de sua pesquisa e reflexão, além das descobertas dos pensadores de sua época, aos quais era inclinado a crer.

No discurso do método, por exemplo, a primeira de suas afirmações era sua própria existência, percebida por sua capacidade de pensar, diante das verdades possíveis. Com gravidade, ele se afirma existente antes e de modo independente do deus criador. Inteligentemente, ele em um segundo passo, traz deus novamente ao discurso filosófico, muito embora, o traga como um “deus enganador”, para logo em seguida, reconhecê-lo como justo e bom. O autor, conforme demonstração supra, sabe não afrontar o poder estabelecido, mas ao mesmo tempo deixar chaves para que gerações ulteriores possam dar passos impossíveis a ele, dada a conjuntura. Demonstração do ora exposto, é que seu “Tratado do Mundo” só pôde ser publicado após sua morte, conforme determinado pelo autor.

Em Paixões da Alma, Descartes, assim como em outros dois autores nos quais se trata o assunto tema, sendo eles Platão e Agostinho, afirma a dualidade do homem, dividido este em corpo e alma. Apresentando estas, posições muitas vezes antagônicas no cenário da vida, mas certamente complementares. Tendo elas essência,  funções e ações específicas. Este composto, o homem, tem corpo e alma trabalhando paralelamente, de modo conjunto, ou não. Sendo que corpo e alma muitas vezes desconhecem movimentos específicos um do outro.

Nos esforçaremos em apresentar a obra, sob apropriação parcial da fala do Dr. Antônio Rogério da Silva. Ao que se segue:

Descartes descreve o funcionamento de nervos, músculos, cérebro e coração, para defender a existência dos “espíritos animais” que hoje, quem sabe, são nossos “neurotransmissores” (?!?), que produzem as paixões a partir do estímulo causado pela percepção trazida pelos orgãos sensores, e defende uma sistemática onde fica demonstrado a seu ver que a alma pode interferir no corpo, mantendo sua individualidade e alteridade ante o corpo, sem que um ou outro se assimilado ou assimile o outro. Ele ainda separa o que é pertinente ao corpo e o que é pertinente a alma. O calor (aqui tido como uma espécie de “princípio vital”), é produzido pelo coração e distribuido por este , via circulação sanguínea. Os espíritos animais produzidos pelo cérebro, agem nos nervos movendo os músculos, utilizando-se do calor gerado pelo coração, que através da circulação sanguínea, irradia esse calor para todo o corpo, permitindo aos “espíritos “animais”, sua atuação, servindo como combustível para estes.

Descartes diz ainda, do corpo que os órgãos sensitivos estimulam os nervos, que enviam a informação ao cérebro, que via “espíritos animais” move os nervos e músculos de modo reativo ao estímulo inicial.

Diante de tais estímulos. os espíritos podem produzir paixões na alma ou não. Eles podem motivar a alma a pensar no estimulo recebido e comandar uma ação, como podem também, influir diretamente nos nervos e promover uma ação “instintiva”, em termos atuais.

Segundo Descartes, à alma cabe a vontade, o pensamento, e a imaginação. Sendo que devaneios, ilusões e sonhos, são produtos da agitação dos espíritos.

As paixões produzidas pelos espíritos podem ser controladas pela alma através da glândula pineal. Supondo que os olhos vejam uma cena aterrorizante, eles comunicam isso aos nervos, que fazem chegar esse estimulo nos espíritos, que se espalham por sangue, coração, músculos, e os outros nervos. Saindo eles de certo ponto do cérebro, tendem a chegar antes dos órgãos, nas glândula pineal que está em uma área central do cérebro, esta ao receber os espíritos, comunica a alma e ela com base em seu repertório de experiências, inteligência, refinamento de valores, conhecimento prévio, delibera e devolve sua decisão como movimento na glandula pineal e em outros pontos do corpo, motivando este corpo a agir via espíritos, nervos, músculos, coração e etc. Fazendo com que o corpo trabalhe segundo sua vontade.

O problema nisso, e que nem sempre os espíritos vão à glândula pineal antes de ir aos órgãos, e quando isso acontece, o corpo reage instintivamente ao estímulo, sem que a alma possa deliberar sobre a melhor decisão.

Baseado nesta dinâmica, Descartes tenta incutir a ideia de que uma alma precisa ter pensamentos e raciocínios precisos, diretos e ser inteligível sempre. Ela deve ser dotada de apurado senso de bem e mal, e ter muita disciplina, tudo isto obtido por educação e treino. Isto por que, quanto mais capaz, melhor uma alma controla as ações do corpo com base em ligação mais precisa com os espíritos e glândula pineal, guiando-a com mais propriedade. O texto elogia os homens capazes de frear suas paixões, dando lugar a ações premeditadas, bem calculadas, e resposta sempre racional, diante de medo, alegria, ira, amor e outras paixões que acometem os corpos.