Inconsciente

Jaz no sepulcro
Envolto de brumas
Todo o desespero
De dias amargos.

Vívido desamor!

Como zumbis,
Certas memórias
Teimam emergir
Vindas do fundo,
Do profundo
Âmago do ser.

Embebedo-as
No mais puro
Scotch.

Bailam comigo!

Uma ou duas doses
Bastam pra fazer bailar
A mais dolorida
Lembrança.

Ou pelo menos
Fazer dormir
Os fragmentos
Contundentes
Do passado.

Ao passo
Que por mais que tema
Os espectros que retornam
Tresloucados,
Visitando cada
Palmo do meu
Particular universo,

Eu embalo
Resignado e
Com cuidado
Estas crianças disformes
E as aconchego
Nos meus braços.

Infante és,
Incauta memória!

Brinca com meu hoje
Faz temer o amanhã.

Me arrasta pro escuro
Quando me distraio…

Me afogo em lágrimas
Vendo-te frívola,
Fingindo-se viva
Mesmo sendo
Apenas espírito.
Apenas eco
Do que foras.

Filosofo
Toscamente

‘O que é a existência senão ato?’

Mas me pesa
Em algum ponto
Fora do vácuo
A pesada
Carga
Do que já não
Há.

‘Onde está o que já não existe,
Mas que me sufoca
A ponto de me fazer chorar?’

Gritava eu
Perdido e com medo
Sem a chave de casa
Sem casa para voltar.

E na dança
Sôfrega
Eu bêbado
E Manco

Te repouso
No fundo
Do fundo
De tua lápide,
Que abriga
A ti e a
Meus sonhos,
E desejos
Abandonados.

A tu,
Que me define.
Que explica de mim
Pra mim,

O que não quero entender.

Tu,
Este algoz que vivifica
O paradoxo oculto
Da existência,

Tu,
Colossal verdugo
Monstruoso e abissal
Eu.

Quem sabe,
Deus.

Ou simplesmente,

Inconsciente?

(Lucas Lima)